sábado, maio 19, 2007

O fenómeno da "Fernando Pessoalização"

Li atentamente no Público do passado domingo, dia 13 de Maio, um texto do provedor dos leitores, no qual se fazia referência ao facto de Laurinda Alves, conceituada escritora, ter escrito um texto um mês antes, o qual intitulou como "A Coragem de Pessoa". Desse "texto inspirador", que Laurinda Alves diz ter "lido em voz alta" num "final de tarde inesquecível", consta um poema que a mesma diz ser autor Fernando Pessoa. O poema é:

"Posso ter defeitos, viver ansioso
e ficar irritado algumas vezes mas
não esqueço de que minha vida é a
maior empresa do mundo, e posso
evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale
a pena viver apesar de todos os
desafios, incompreensões e períodos
de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor
da própria história. É atravessar
desertos fora de si, mas ser capaz de
encontrar um oásis no recôndito da
sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã
pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios
sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma
crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir
um castelo…"

Confesso que já havia recebido no meu e-mail este "texto inspirador" diversas vezes. Também já recebi mais dois ou três textos de "inspiração" semelhante. Estranhei sempre isto ter origem em Fernando Pessoa e vi que não era o único ao ler a dita coluna do Provedor do Leitor. Fiquei aliviado por que afinal não era inculto. Os motivos para estranhar o texto são simples: em primeiro lugar porque não se fazem traduções de textos em português-português para português-brasileiro. Como tal, se este e os outros textos fossem de Fernando Pessoa, a primeira coisa que se notaria seria o "aportuguesamento" do mesmo. Desconheço-lhe um novo heterónimo do qual nunca ninguém ouviu falar mas que escrevesse desta forma.
O segundo motivo é o conteúdo. É inspirador sim senhor. Tem algumas coisas que se podem aproveitar para a vida e é bonito. Porém, a ser este texto (e os outros que recebi no e-mail, em brasileiro, em que se alegou serem dele também) de Fernando Pessoa, tenho a dizer que é do mais pobre e fraco que ele fez. O conteúdo deste e dos outros textos, não é propriamente algo que nos delicie ou nos ponha a dissecar o poema. Como Laurinda Alves, o máximo que isto nos provoca é uma vontade de o recitar em voz alta, e tenho a dizer que só abriria essa possibilidade com uma tremenda de uma bebedeira em cima.
Acho triste e absurdo que as pessoas escrevam as coisas e a única forma de as difundir seja através do sensacionalismo. Isto é sensacionalismo. Escrever algo e assinar no fim como Fernando Pessoa e passar a mensagem, não é difícil. As pessoas deixam-se levar muitas vezes pelo nome e nem tanto pelo conteúdo e assim começam os "textos inspiradores". Já que optam por fazer isso, poderiam engendrar a tramóia e o ultraje como deve ser. Poderiam começar por "aportuguesar" o texto. Pelo andar da carruagem, um destes dias arrisco-me a receber no meu e-mail qualquer coisa como:

"Fui à praia, apanhei um búzio,
Cheguei a casa, na mesa púzio"

Fernando Pessoa

2 comentários:

Marçal disse...

estava eu plenamente convencido que era do seu heterónimo Jenílson Ipatinga, natural do grande Estado de Minas Gerais...

DJ disse...

É o alterego brasileiro do Fernando Pessoa :)