segunda-feira, julho 18, 2005

O tempo passa...



Pois é. Se há coisa que mais me marca, e que nunca esquecerei, foram os anos que passei no Liceu. Eram tempos tão mágicos, tão simples, em que tudo parecia ter uma importância extrema para mim. Tempos em que comecei a aceder à internet (comecei em 1996); tempos em que tinha o chamado netpac, que tinha que carregar com 5.000$ para ter acesso a 30horas de navegação; tempos em que conheci o mirc, e cheguei a passar quase 2 dias seguidos lá sem pregar olho (pois é... era almoçar no PC, jantar no PC...); tempos em que o canal Portugal com 80 pessoas considerava-se "lotado"; tempos em que toda a gente que se encontrava na net, era sincera, e nutriam um carinho enorme entre todos; a curiosidade sobre este desconhecido era enorme; tempo em que podia ir ao 30-50 (mesmo sendo adolescente) e recebiam-me bem, e tratavam-me como se um trintão fosse; tempo em que se podia construir "quase" uma família na net, dado que todos eram muito próximos; tempo em que haviam canais com servidores de mp3 na ptnet; tempos em que a net chegou a ter um BOOM enorme, e o canal Portugal de 80, passou para 1000 users, e tinha que fechar; a rede tinha mais de 20.000 users e tinha que vedar o acesso aos que tentavam entrar a todo o custo; tempos em que as mulheres ainda não eram desconfiadas; tempos em que os tarados ainda não entravam (muito); tempos em que ao criar-se um canal, facilmente o tinhamos cheio; tempos de ir aos newsgroups ver pornografia; tempos de ir aos newsgroups para conhecer pessoas novas; tempos em que ia ao PSS (Pt.Soc.Sexologia) e era conselheiro sentimental de muita gente, e muita gente era de mim; tempo em que muita gente sentia a minha alegria e dor, relativamente a imensas coisas; tempos em que o PSS apesar de ser sexologia, não era um antro de tarados sexuais, mas de pessoas que realmente discutiam temas diversos (vão ver como é nos dias de hoje); tempos em que pela primeira vez troquei um e-mail e conheci esse alguém (só virtualmente, claro): chamava-se Svetlana e era Russa (nunca mais me esqueço, nem sequer da 1ª foto que me mandou, a 1ª via net); tempos em que valia a pena guardar logs de canais; tempos em que surgiu o ICQ e era considerado um programa fora de série; tempos em que o netmeeting estava na moda e ter um modem de 33.600 era um luxo; tempos em que a TVI dava boas séries que marcaram a nossa infância, e outras que marcavam a nossa adolescência; tempos em que o Benfica ainda me fazia ter quase ataques cardíacos; tempos em que a ESEG (Escola Secundária Elias Garcia-Cacilhas) ainda existia com aqueles barracões enormes; tempos em que a escola fechava 2 e 3 dias porque tinha que ser desinfestada de baratas e ratos; tempos em que tive as típicas paixões pelas profs; tempos em que senti o que é a verdadeira amizade, como nunca tinha sentido, nem nunca mais cheguei a sentir (o companheirismo era surpreendentemente arrebatador); tempos em que dava cabo da cabeça aos professores com as minhas teorias do além, mas às quais muitos não tinham resposta; tempos em que a minha turma (parte masculina) ficou 3 semanas sem Educação Física porque tinham roubado uma sanita do balneário e nunca ninguém descobriu quem, ou onde ela foi parar; tempos maravilhosos, em que, ao longo de 3 anos, só se jogava voleibol nas aulas de Educação Física; tempos em que consegui convencer a turma toda a assinar uma folha, para ficarmos com a Prof. de Inglês no ano seguinte (dado que ninguém suportava a professora, e eu era o único que gostava dela... é uma vitória); tempos em que a Prof. de ITI era uma amiga quase "dos nossos"; tempos em que a Prof. de TTI começou a ser vocalista do grupo Great Lesbian Show; tempos em que uma simples visita de estudo à Arrábida foi talvez o melhor passeio que podiamos ter tido nas nossas vidas; tempos em que copiavamos os testes de Matemática à grande, da rapariga crânio da turma e tinhamos melhores notas do que ela; tempos em que copiámos metade de um teste de Economia por uma, e a outra metade por outra, e as notas das duas juntas não chegavam à nossa; tempos em que eramos 10 a jogar ao Uno nas aulas de Sociologia, e outras tantas; tempos em que a nossa Prof. de Português nos dizia que nos deixava jogar ao Uno, se fosse essa a única forma de estarmos calados; tempos em que a ESEG era a única escola da Margem Sul do Tejo, onde podiamos entrar, sair, anda à vontade sem estarmos preocupados se estaria algum gang à entrada para assaltar alguém, ou a traficar droga e outros afins; tempos em que a sala de computadores foi praxada pelos nomes Tiazinha-H e JoaOliveira; tempos em que tive um 19,5 porque a prof. de TOE gostava mais da Zélia e quis dar-lhe o 20; tempos em que entrava de manhã, tomava um pequeno-almoço decente na fonte luminosa, vinha almoçar a casa e voltava para as aulas da tarde; tempos em que ainda ia para Almada; tempos em que faziamos a prova global de ITI pelo winpopup; tempos em que jogavamos puzzle bubble (outro jogo do momento) durante as aulas de ITI; tempos em que o Prof. de Matemática me mandava a mim e ao meu amigalhaço irmos comprar flores e medicamentos à farmácia e depois lancharmos com o dinheiro que sobrasse; tempos em que fiz flexões por não conseguir resolver um exercício de matemática; tempos em que os X-Files eram a série viciante do momento; tempos em que os nossos jantares de turma, eram realmente os melhores; tempos das jantaradas no Horácio; tempos dos almoços no M Bica; tempos das futeboladas; tempos das praias; tempos em que... fiz grandes amigos e infelizmente todos se perderam; tempos em que vivi o 1º enorme amor da minha vida; tempos em que o CM3 era o jogo da moda, e o Tomb Raider era o jogo mais avançado do momento; tempos em que gravei o Tomb Raider a um colega meu, em +- 78 disketes; tempos em que a TV Cabo só aparecia em muito poucas zonas do país; tempos em que o telemóvel ainda não era de conhecimento público e se quisessemos fazer chamadas ou iamos à cabine ou era pelo telefone de casa; tempos em que ainda ninguém tinha carro, e talvez fosse isso mesmo que nos unia mais uns aos outros; tempos em que tinhamos que correr para apanhar o último autocarro quando nos viamos; tempos em que... tanta coisa... e tudo o que vejo é que estes anos nunca mais voltarão. O que sinto é um misto de dor/saudade/saudades e fica a alegria de ter vivido o máximo, de ter sorrido como nunca sorri. Vivi como nunca vivi! Tinha tanta gente à minha volta e sentia-me acompanhado! Hoje, sinto companhia, mas... não é tanta! Falta algo! Não sei se os outros estão a ficar excessivamente adultos, se sou eu que estou a manter a criança que há dentro de mim anos a mais. Uma coisa é certa: se manter essa criança que há em mim, me fizer continuar a ter sonhos, a recordar os tempos em que FUI feliz, e a agir como se tivesse 16 anos, então quero continuar assim para sempre. São estas memórias que por vezes nos fazem mexer, e este tipo de sonhos que nos faz lutar! Para a posteridade, fica a foto que tirei com a minha turma, no último dia de aulas na ESEG, em 1999. A escola foi praticamente toda demolida 1 ano depois, e reconstruída. Foram-se os barracões, mas tenho aqui mais fotos desse tempo :) e as memórias, ninguém as deita abaixo! Acabou a felicidade verdadeira e pura e até a net começou a ser diferente, começou a tornar-se naquilo que hoje todos sabem que é. Nunca mais consegui sorrir daquela forma que sorria. Nunca mais me voltei a sentir tão acarinhado e com tanta atenção. Os meus amigos/colegas sentiam-me e compreendiam-me e apoiavam-me. Davam-me atenção. Hoje, parece que tenho 100x mais atenção e pessoas à minha volta, mas... sinto menos todas essas coisas. Será que o meu EU ficou lá atrás e tudo o que sobrou foi um resmungão que reclama de tudo e de nada e se transformou no "elemento do contra"? Foi assim, que eu um dia fui feliz! E mais ainda espero vir a ser! É com este sonho e espírito, um misto de, maduro-infantil que quero continuar, até que um dia a vida me leve!

2 comentários:

Filipe de Arede Nunes disse...

Até fiquei deprimido... que nostalgia devastadora. Vou cortar os pulsos!

O_Pombo disse...

Os tempos do secundário foram os mais felizes, sem dúvida. Tinhamos o máximo de liberdade e o mínimo de responsabilidade, e era um espectáculo. Ainda me lembro quando à sexta feira à noite ia pela rua do manecas e da tasca do cão, em Almada velha, e demorava quase um quarto de hora a percorrê-la porque tinha que falar a meio mundo porque conhecia toda a gente que ou eram meus colegas da Anselmo, ou meus vizinhos ou simplesmente amigos.

Bons tempos!